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quarta-feira, 26 de junho de 2013

É arte!

Imagem de fundo: Cota 500

DR. TERNURA LARANJA
É como lhe digo. 
SR. MINISTRO
Não posso acreditar!
DR. TERNURA LARANJA
Eu tenho aqui o nosso adido cultural. Ele pode explicar tudo. Anda cá, Olim. Vem cá falar com o Senhor Ministro. Ele não quer perceber, mas vai perceber. 
Miguel Olim 
Boa dia. É um prazer conhecer o Sr. Ministro. 
SR. MINISTRO
Diga lá. Isto é ou não é uma obra pública?
MIGUEL OLIM 
É obra e é pública, mas não serve os propósitos que está a pensar, pois é uma obra de arte pública. 
SR. MINISTRO
Obra de arte!? Pública!?
MIGUEL OLIM 
Sim Senhor. Obra de Arte.
DR. TERNURA LARANJA
Exactamente. Arte!
SR. MINISTRO
Mas isto é uma estrada.
MIGUEL OLIM 
Lamento, mas no plano conceptual está completamente equivocado, Sr. Ministro. 
DR. TERNURA LARANJA
Isso! Conceptual! Arte!
SR. MINISTRO
Isto é uma obra pública chamada "Cota 500", custou milhões de euros...
DR. TERNURA LARANJA
Filisteu. 
SR. MINISTRO
Como?
DR. TERNURA LARANJA
Em Cuba são todos uns filisteus. 
(Irritado.)
SR. MINISTRO
Olhe lá que eu sou ministro, e posso cortar o financiamento todo!
MIGUEL OLIM 
Calma! Calma, Sr. Ministro. Eu tenho um argumento. Posso usar um argumento? Diz o Senhor Ministro que isto é uma "estrada"? (gesticulando a partir daqui todos aspas com os dedos).
SR. MINISTRO
E é uma estrada! Tem alcatrão, é uma estrada!
MIGUEL OLIM 
(Apaziguando a irritação do Ministro)
Mas Senhor Ministro, é uma se é uma "estrada", posso fazer uma pergunta?
O ministro anui com a cabeça. 
MIGUEL OLIM 
O Sr. Ministro está a ver alguma viatura nesta "estrada"?
SR. MINISTRO
Não. Desde que cheguei não vi nenhum veículo. 
MIGUEL OLIM 
Ora aí está, se não tem viaturas não é uma estrada!
DR. TERNURA LARANJA
É arte! Arte!
SR. MINISTRO
Não me parece muito convincente. 
MIGUEL OLIM 
Pois não parece. 
DR. TERNURA LARANJA
Filisteu. 
MIGUEL OLIM 
Sabe, nestas bandas, levamos isto das artes muito a sério. Esta obra representa as muitas voltas que a vida dá...
SR. MINISTRO
Está bem, está bem. Acabou a conversa! Vamos avançar. Arte? Arte!

Imagem de Fundo: Ponte Inacabada em Câmara de Lobos
SR. MINISTRO
E isto? É arte!?
MIGUEL OLIM 
Pois claro, que sim. Esta ponte representa as curvas da vida. Dá tantas curvas a vida e depois pumba! Acaba e foi-se. 
DR. TERNURA LARANJA
É arte! Arte.

Imagem de Fundo: Marina do Lugar de Baixo
SR. MINISTRO
E isto? É arte?
DR. TERNURA LARANJA
Cubanos, cubanos. 
MIGUEL OLIM 
Sr. Ministro, estou a ver que está irritado. Sabe isto que representa o lago da vida, a alma, ou seja, o Lugar de Baixo. Uma pessoa nada no lago lá em baixo, nas profundezas da alma... e fica mais humana, mais solidária, mais...
SR. MINISTRO
É, mas é uma "Marina"! A Marina do Lugar de Baixo.
MIGUEL OLIM 
Já disse Sr. Ministro, é uma representação da alma humana, o Lugar de Baixo. Posso usar um argumento? Posso usar um argumento?
DR. TERNURA LARANJA
Usa o argumento!
MIGUEL OLIM 
Vou usar um argumento. Sr. Ministro. Olhe bem. Está a ver algum barco? Naquilo que diz ser uma "Marina"?
SR. MINISTRO
Não. Nenhum barco. Não vejo nenhuma embarcação. 
MIGUEL OLIM 
Então não é uma Marina!
DR. TERNURA LARANJA
Sr. Ministro, já percebeu que é arte?
SR. MINISTRO
Não consigo perceber. 
DR. TERNURA LARANJA
É obra! Isso é que é obra. Mas relaxe. Vamos lá tomar um copo, oferecido por si. Como sabe não há dotação financeira para copos. Se houvesse dotação financeira as coisas já eram diferentes. Mas isso vai depender de si. 
MIGUEL OLIM 
E com essa dotação financeira podemos continuar a fazer obra...
DR. TERNURA LARANJA
Arte! O que é preciso é arte. Mas sem dotação financeira vai ser difícil continuar a obrar...
MIGUEL OLIM 
Obrar?
DR. TERNURA LARANJA
Arte!
MIGUEL OLIM 
Sim. Arte, Sr. Ministro. 
DR. TERNURA LARANJA
Fale lá com o primeiro-ministro e sai já uma poncha de maracujá para o Sr. Ministro. 
SR. MINISTRO
Sim. Acho que preciso. 
DR. TERNURA LARANJA
Temos dotação. É obra!
SR. MINISTRO
É mais obrar. 
MIGUEL OLIM 
O Sr. Ministro, pode ser que sim, mas o que sai é arte. 
DR. TERNURA LARANJA
Arte! Sublinho: arte!
SR. MINISTRO
É preciso ser um grande artista para tanta arte. 
DR. TERNURA LARANJA
Pois, claro que sim! Claro que sim! Arte! Artista. Arte!





A Senhora Simpática Que Gosta do Passos

Era uma mulher sorridente e espirituosa. 

Diz ela:

- Já que gosta de política, vou dizer uma coisa que não vai acreditar.

- Impossível, nesta terra acredito em tudo. 

- Eu gosto do Passos!

- Qual Passos?

- Ora essa, o Passos.

- O John dos Passos?

- Não é esse, o outro. 

- Qual outro? Não estou a ver.

- Claro que está a ver!

- Não. Não estou. Qual Passos?

- O primeiro.

- Qual primeiro? O seu primeiro marido?

(Risos)

- A sério. Não estou a ver.

- Aí! O coiso!

- Eh pah! Não estou mesmo a ver. Qual Passos?

(Estava a ser sincero.)

- O Passos. O Coelho Passos. 

- Ah! O Passos Coelho! Pois, é verdade. Não acredito.

- Não disse?

- Disse, mas eu não acredito.

- Não acredita. Foi como eu disse.

- Mas quem gosta do Passos Coelho neste país?

- Eu. Eu gosto.

- Não acredito. 

- Gosto. Gosto muito dele. Ele é que aguenta o país.

- O país é que não aguenta com ele. 

- Este país é mesmo assim.

- Pois, por causo dos Passos. 

- Quais passos?

- Os passos do Passos. 

- Acredite em mim, ele faz muito por este país.

- Olhe que não. 

(Já parecia o Cunhal com esta.)

- Olhe que sim. Ele aguenta o país.

- Mas o país afunda por causa dos passos de gajos como o Passos.

- Quais Passos?

- Os passos de gajos como o Passos Coelho. 

- Não diga isso.

- Digo, digo.

- Um rapaz com a sua inteligência não pode pensar assim. 

- Como quer que eu pense?

- Que o Passos está aguentar o país. 

- Acho que vou manter-me pouco inteligente, e não dar esse passo. 

- Qual passo?

- O passo de dizer que é o Passos que aguenta o país.

- Credo! Tanto radicalismo! Veja as coisas com clareza.

- Desculpe lá, mas quem precisa de clareza é o Passos. 

- Qual Passos?

- Diga-me uma coisa. Quer beber tinto ou branco?

- Branco. 

- Acho bem. A conversa do Passos pôs-me a cabeça turva. 

(Fui buscar o vinho.)

- Já que teve na África do Sul, a coisa está mal para o Mandela. 

- Não gosto nada desse Mandela.

- Gosta do Passos, mas não gosta do Mandela?

- Sim.

- Não acredito.

- Acredite. 

- Acho que preciso de algo mais forte. Há whisky?

- Está ali, a poucos passos. 

(Risos.)