Era uma mulher sorridente e espirituosa.
Diz ela:
- Já que gosta de política, vou dizer uma coisa que não vai acreditar.
- Impossível, nesta terra acredito em tudo.
- Eu gosto do Passos!
- Qual Passos?
- Ora essa, o Passos.
- O John dos Passos?
- Não é esse, o outro.
- Qual outro? Não estou a ver.
- Claro que está a ver!
- Não. Não estou. Qual Passos?
- O primeiro.
- Qual primeiro? O seu primeiro marido?
(Risos)
- A sério. Não estou a ver.
- Aí! O coiso!
- Eh pah! Não estou mesmo a ver. Qual Passos?
(Estava a ser sincero.)
- O Passos. O Coelho Passos.
- Ah! O Passos Coelho! Pois, é verdade. Não acredito.
- Não disse?
- Disse, mas eu não acredito.
- Não acredita. Foi como eu disse.
- Mas quem gosta do Passos Coelho neste país?
- Eu. Eu gosto.
- Não acredito.
- Gosto. Gosto muito dele. Ele é que aguenta o país.
- O país é que não aguenta com ele.
- Este país é mesmo assim.
- Pois, por causo dos Passos.
- Quais passos?
- Os passos do Passos.
- Acredite em mim, ele faz muito por este país.
- Olhe que não.
(Já parecia o Cunhal com esta.)
- Olhe que sim. Ele aguenta o país.
- Mas o país afunda por causa dos passos de gajos como o Passos.
- Quais Passos?
- Os passos de gajos como o Passos Coelho.
- Não diga isso.
- Digo, digo.
- Um rapaz com a sua inteligência não pode pensar assim.
- Como quer que eu pense?
- Que o Passos está aguentar o país.
- Acho que vou manter-me pouco inteligente, e não dar esse passo.
- Qual passo?
- O passo de dizer que é o Passos que aguenta o país.
- Credo! Tanto radicalismo! Veja as coisas com clareza.
- Desculpe lá, mas quem precisa de clareza é o Passos.
- Qual Passos?
- Diga-me uma coisa. Quer beber tinto ou branco?
- Branco.
- Acho bem. A conversa do Passos pôs-me a cabeça turva.
(Fui buscar o vinho.)
- Já que teve na África do Sul, a coisa está mal para o Mandela.
- Não gosto nada desse Mandela.
- Gosta do Passos, mas não gosta do Mandela?
- Sim.
- Não acredito.
- Acredite.
- Acho que preciso de algo mais forte. Há whisky?
- Está ali, a poucos passos.
(Risos.)